As pessoas atropelam umas às outras. Eles não sabem como estou. Atravessando um cruzamento com o mínimo de segurança. Enquanto eles se atropelam. Entre eles mesmos. Entre palavras, perguntas e respostas. É nada que eu queira. Estar entre eles. Eu não consigo. Acompanhar. Atropelar. Perguntas e respostas que não fazem sentido. Eu farei tudo o que for preciso para que nada mais seja preciso.
quarta-feira, 10 de novembro de 2010
As pessoas atropelam umas às outras. Eles não sabem como estou. Atravessando um cruzamento com o mínimo de segurança. Enquanto eles se atropelam. Entre eles mesmos. Entre palavras, perguntas e respostas. É nada que eu queira. Estar entre eles. Eu não consigo. Acompanhar. Atropelar. Perguntas e respostas que não fazem sentido. Eu farei tudo o que for preciso para que nada mais seja preciso.
terça-feira, 30 de junho de 2009
II
Hoje me parece ter lhe visto. Você estava perto de uma fonte? Um dia desses quem estava perto dela, era eu. Estava pedindo um desejo. Você também estava, se não me engano, vi você jogando uma moeda na fonte. Desculpe a intromissão do meu olhar e meus pensamentos.
Talvez devesse ter ido até você, te chamar, mas fiquei com medo de começar outra carta imensa, guardá-la no bolso e continuá-la no dia seguinte, se bem que, isso já está acontecendo.
Desta vez, minha gata ficou em casa, quis poupá-la das minhas andanças sem conclusão alguma. Esperei você andar até algum outro lugar, então voltei à fonte, mas eu não consegui ler pensamento algum no ar. Você deixou algum?
Você poderia deixar pensamentos espalhados por ai, já que não trocamos mais palavra alguma. Lembro quando um dia, falamos sobre telepatia, mas não me lembro de ter dito que nos resumíssemos a ela. Você lembra?
Pergunto-me para onde você foi agora, já estou sabendo que vai fazer uma viagem dentro de alguns dias, talvez um. É todo o tempo que me resta. A verdade é que eu estou bem ocupada, não deveria estar aqui, nem ali, nem procurando você. Deveria seguir o seu exemplo, mas não. Como é que você faz?
Por mais frio que sinta, não consigo tornar-me igual a ele, mesmo que ele esteja tão dentro de mim, atravessando todas as roupas que visto. Preciso aprender um pouco dele. Desligar-me, talvez. Torradeiras são frias quando desligadas, e os demais eletrodomésticos também. Talvez eu seja geladeira velha, aquecendo mesmo ligada ou desligada.
Você sumiu rapidamente, enquanto eu estava a tentar captar algum pensamento seu no ar. Deixou-me triste, confesso. Não é uma grande confissão. Agora a pouco você estava bem aqui, ali, não ao meu lado. Nem mesmo o ar que você respirou passou perto de mim.
Enquanto penso todas estas coisas, temo esquecer o caminho de volta para casa. Agora você poderia se preocupar? Bem, acredito que minha gata irá sentir a minha falta e virá me buscar. So, don’t worry anyway.
Talvez o problema seja eu estar deixando meus pensamentos em lugares que você não virá. Mas como saber os lugares que você irá? Não tenho muito tempo. Nunca tivemos e agora temos menos ainda, aliás, você e eu não temos mais tempo nenhum, agora, se temos tempo, é um tempo individual, você o seu, eu o meu.
Está acabando, está ficando tarde, o dia seguinte não vai demorar e o dia após o dia seguinte também não. Também não vou demorar e você já foi há horas. Já estou indo de volta para casa, antes que eu esqueça talvez não do caminho somente, mas de voltar. Assim que eu chegar a casa, já poderei esquecer-me de voltar, o ponto de referência será outro, não mais a minha casa.
Se, quem sabe um dia, você captar meu chamado, minhas perguntas, meus pensamentos, será toda resposta necessária. Você vem? Você terá ido. Se um dia eu voltar, eu sentirei falta da minha pergunta no ar, quer dizer então, que ela terá sido sanada.
sexta-feira, 26 de junho de 2009
I
Está chovendo, esqueci o meu casaco em casa, mas não se preocupe, se você não vir, eu volto para casa mesmo assim, não me importo de andar debaixo da chuva. Ela até é minha amiga, sabia? Tenho notado que ela é bem solidária, toda vez que vou começar a chorar, ela vem também, como para disfarçar, como para eu achar que o céu chora junto comigo. São todos muito amigos por aqui. É só você me dizer, ainda vem ou eu devo ir por nós duas?
O vento está ficando forte e eu tenho pensado tanto desde que cheguei aqui, estou começando a me sentir mal. Minha gata está deitada nas minhas pernas, numa tentativa vã de me aquecer. Tentei lhe explicar que o meu frio é algo mais interno e lamentavelmente você já me dói demais, logo, é tudo em vão.
Eu não sei bem por que eu vim e muito menos por que eu ainda estou aqui. Já está bem tarde. A hora que marcamos de nos encontrar já passou há muito tempo, eu já devia ter ido, porém ainda espero uma resposta. Você pode se perguntar qual foi a minha pergunta ou se estou falando da mesma pergunta que fiz anteriormente. É ela mesma, você vem?
Acho que a minha gata também está com frio, está tão enroladinha e parece que quer ficar debaixo da minha camisa. Acredito que não vai adiantar, pois minha camisa nem é de lã. Já lhe contei como o céu está bonito? Pois ele está bonito mesmo, bem bonito, você devia ver. Você quer vir? Aliás, você ainda vem? Quando amanhecer, o céu que estou vendo agora vai sumir, pense bem, e mesmo que você venha amanhã, não vai ser o mesmo céu e digo mais, não vai estar na minha companhia, nem você, nem o céu.
Pode ser que agora não lhe importe muito, mas quem sabe um dia, ou mesmo amanhã, você possa sentir alguma coisa em relação a mim, uma vontade de estar perto, assim como a que eu estou sentindo agora. Bem, deixe-me ser mais clara, não é vontade de estar perto de mim que eu estou sentindo, nem algum sentimento em relação a mim, mas sim tudo em relação a você.
Eu sei. Você já deve ter entendido, talvez já esteja começando a me achar repetitiva e até um pouco (ou bastante) boba, mas é que eu preciso mesmo saber, você vem? Não que eu vá ficar aqui até você responder, sabe? De repente eu levanto e começo andar, quem sabe. Você não quer isso, né? Acho melhor você me responder, assim eu posso ficar um pouco mais, te esperando. Não que eu ache que você vai dizer que vem, mas você também não achava que eu ficaria aqui durante tanto tempo, não é?
Não se sinta acanhada, tudo bem se eu tiver que andar até a minha casa, já andei muitas outras vezes. Seja lá qual for a sua resposta, pode falar. A minha gata acabou de descer das minhas pernas e se aproximou de uma poça de água. Eu também estou com sede. Estou com fome. Pensei que depois deste passeio, poderíamos ir jantar a algum lugar. Saí de casa sem comer nada. Não lembro bem se bebi algum copo d’água, suco ou algo parecido. Provavelmente não. Não queria correr o risco de precisar ir ao banheiro no meio da nossa conversa ou silêncio.
Nem mesmo há um banheiro por perto, que sorte! Mas se você estiver precisando ir ao banheiro, eu posso te levar em casa. Você está precisando? Se você disser que sim, eu volto logo para minha casa, pego meu casaco, volto aqui e continuo a te esperar. Assim que você chegar, vamos andando para minha casa e eu te ensino onde é o banheiro.
Não é uma das idéias mais inteligentes que já tive, afinal, onde você está, deve existir um banheiro. Aliás, onde você está? Distraí-me escrevendo esta carta e nem mesmo sei onde posso te entregar. Bem que você poderia me dizer, assim eu vou aí te buscar ou então você poderia vir aqui pegar estes papéis amassados.
Minha gata já voltou, foi dar um passeio, voltou com as patinhas molhadas, e agora minha calça está com umas manchas d’água, naturalmente. Acho que o pior já passou. Agora está bastante silêncio, mais do que antes. Tentei estabelecer uma conversa com a minha gata, perguntar se ela tinha te visto por aí. Você não está perdida, está? A única coisa que a minha gata disse foi “miau”, seria mais fácil se você me dissesse alguma coisa.
Eu tento entender a minha gata, ainda mais numa hora como esta. Mas o engraçado é que, por mais que eu não a entenda, ela me entende, ou ao menos é o que parece. Quando chegarmos a casa, vou lhe servir um banquete bem gostoso, do jeito que ela gosta. Claro que ela vai sentar à mesa comigo, não gosto de comer sozinha e, melhor do que assistir T.V é assistir um rosto felino bem feliz e satisfeito. Será que você quer nos fazer companhia? Posso colocar mais um prato na mesa, se você quiser.
Aprendi a cozinhar desde os meus dezesseis. Minha mãe costumava viajar e me deixar com meu pai, o qual nem sempre estava presente. Além do mais, meus costumes são vegetarianos e, se a minha memória não me falha, você também não é de comer carne. Acho que você ia gostar das comidas que eu sei fazer.
Bom, parece-me que já falei demais e estou observando a minha gata andando de volta para casa, preciso ir atrás dela. É uma pena você não ter dado o ar da sua graça por aqui, vou continuar sentindo a sua falta. Você sabe. Às vezes sinto que você sabe até os meus pensamentos, pois, não raro, aconteceu de eu estar pensando alguma coisa e você dizer algo a respeito. Sempre achei curioso, no mínimo. Mas acho que disso, você não sabia. Sabia?
Caso você resolver aparecer, dê uma lida nos meus pensamentos que ficaram por aqui, neles se encontra o caminho até a minha casa e, para ter certeza de que é ela mesma, também se encontra nos meus pensamentos, a imagem da minha gata, ela costuma dar umas voltas pelo jardim, se você a ver, quer dizer que está na casa certa.
Agora, preciso ir, minha gata está parada na esquina da rua, olhando para mim, me esperando, e eu sei como é ruim esperar, mas já disse a ela que estou indo. Se você me permitir lhe dizer mais uma coisa, eu queria pedir para você não ignorar meus pensamentos, leia-os com carinho e, se quiser me responder...
domingo, 31 de maio de 2009
Aqui, ali, em qualquer lugar
sábado, 9 de maio de 2009
Descrevendo tua ausência
quinta-feira, 23 de abril de 2009
Eu disse assim que acabar
domingo, 22 de março de 2009
Infinito completo vazio
quinta-feira, 12 de março de 2009
É como o inverno que passou. A primavera vem logo em seguida. É como milhões de flores nascendo no jardim. Estou entre elas. Posso sentar na grama e conversar com todas elas. Deito na grama e o tempo começa a passar por mim. O tempo passa e as flores passam por mim. Sem me importar para onde vou, deito, sinto o cheiro de uma flor e tanto faz se o chão vai se abrir daqui a um tempo. Pois sei que vai.
Há uma flor em minha cama, e eu não sei muito bem como tocar flores. As pétalas que há, são todas dela. Um novo aroma surge no meu quarto. Desde ontem à noite podia senti-lo fixar-se nas paredes do meu quarto e em cada objeto que possuo. Avisto mais uma vez o beija-flor. Tento afastá-lo da minha.
Continuo sem saber tocá-la, mas ela tão quieta. Como se nada ruim fosse me acontecer caso eu fizer algo errado. O toque de uma flor nunca pode ser errado, para quem sabe o que é uma flor. Disse que eu não entendo de flores, eu mente. Não minto, mas a mente... Que vá para longe.
De uma coisa quero ter certeza. Encho de terra minha cama, encho de água. Quero vê-la florescer nos meus braços. Quero sempre as pétalas a me cobrir. Quero ser terra e água. Quero ser o vaso. Quero puxar a descarga.
É como uma flor seca. A visita do beija-flor que morre. Veio entrar no meu quarto, bateu a cabeça na janela. Cai, decompõe. Um pássaro maior vem a comer os restos. Um gato velho vem comer o pássaro maior. Não quero assistir. Enfia as garras no peito do urubu, cai. Sangram de ambos os lados. Ninguém vence.
É como a luta silenciosa de todos os dias. Como a mudança do belo para o feio. Para o grosseiro, sórdido. Minha cama não passa de velhos lençóis que nunca lavo. E é incrível a dificuldade que tenho para escrever lençóis. Atrapalho-me entre o cê-cedilha e o acento.
Há nada mais e nada mais que nada e nada que eu queira mais. O começo de algo tão diferente do fim. Mas concluo que não devo me preocupar, logo mais estarei ao lado de todos os outros, tão iguais e diferentes. Não questiono mais, o fim não é saber, o fim é não saber. Concluo e desapareço do espaço, perdendo os laços, sentindo o descaso, aliviando-me como uma pedra sendo jogada no rio.
Deve ser tão confortável, afundar e afundar. Chegar ao fim. Se o que querias era agonia, deixa o menino te encontrar no meio de todas as outras. O lançamento perfeito. Seja por alegria, raiva ou falta do que fazer. Levanta a mão, te solta, pedra. Vais para longe, e eu não posso te alcançar. E eu não sei se é o fim, então é.
domingo, 22 de fevereiro de 2009
Em ritmo de carnaval
quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009
Sou um caracol
Tudo que eu precisava era de sal, porque eu sou um caracol, e de um pouco, porque eu sou pequeno. Tudo que eu precisava era de sal. Bastante, porque sou pequeno, mas sou guloso. O que eu precisava era pouco, mas eu queria bastante. Então comecei a espumar, espumar, espumar. Espumava bastante e as crianças riam de mim. Pegavam-me pelo meu casquinho de nada e colocavam-me de pé pra cima. Meu casquinho ia logo quebrar. Essas crianças tem uma força danada. Espumava, espumava. Gosto de chamar de espuma. Espuma me lembra banho, e banho me lembra sais de banho, e sais de banho me lembram sal, e sal me lembra espuma. Acontece que o meio do meu organismo torna-se hipertônico. Precisa urgentemente de água. Mas eu não espero que ela chegue. Sei que as crianças tem umas garrafinhas com água nas suas mochilas, mas eu não vou pedir não. Não sou de pedir muitas coisas. Peço quase nada. Nem mesmo pedi sal. Mas todos meus irmãos já passaram por isso e nunca mais vi nenhum deles. Deve ser coisa de outro mundo e eu quero sair daqui. Espumava. Acho que espumei por completo. Agora estou no chão, minha casinha está em cacos. As crianças foram embora correndo. Seria uma espécie de brincadeira? Fiquei pensando o que estaria por vir. O que será que elas iriam trazer para mim? Não vi quanto tempo as crianças demoraram, mas sei que estava me sentindo muito cansado. De repente não senti mais nada, restou apenas o meu pensamento transbordando no papel através de alguém que olhara para mim desde o começo, sem eu perceber. Não percebi, percebi e morri.
sexta-feira, 26 de dezembro de 2008
Corpo, pensamento, pé.
terça-feira, 2 de dezembro de 2008
Sem pratos na mesa de jantar.
domingo, 30 de novembro de 2008
Par de meias sujas em cima da mesa.
sexta-feira, 28 de novembro de 2008
Minha boca bebia vinho.
segunda-feira, 24 de novembro de 2008
Meu cachorro morreu e eu não vi.
Ninguém me esperou para comemorar a virada do ano.
"Querido papai noel, não sei se deveria escrever o seu nome com letra maiúscula, espero que neste natal as decorações natalinas fiquem por mais tempo, até o segundo mês do ano novo que eu gostaria de ganhar. Obrigada."