Acho que, a cada dia que passa, estou a distorcer a realidade cada vez mais. Até que nada mais importe, pois nada mais importa de facto. De tanto não poder falar, não quero ouvir. Certifiquei-me de que tudo é desnecessário, para não me sentir mal ao ser ausente.
Outro dia estava sentada no banco de um ônibus, ele estava se movendo rapidamente, pensei que, naquele instante, pudesse morrer. Sempre penso em tudo e até no pior, mesmo que não pareça tão pior - talvez a idéia de morrer fosse uma das melhores. Parei o pensamento no "e se tudo acabasse aqui.." e por uns segundos senti a brisa da morte que entrava pelas janelas abertas do ônibus e que se moviam e faziam barulhos de janela desnecessários. Barulhos de janela batendo na outra janela. Ônibus. Barulhos de ônibus. Desnecessários. Sete segundos, talvez, então parei de respirar e escutar, parei de viver toda aquela coisa desnecessária. Voltou a mim o pensamento.. Naquele dia, eu banhei meus gatos.
Então seria esse o meu pensamento final de tudo?
Estaria prestes a morrer, mas estava tudo bem, meus gatos estavam livres das pulgas e carrapatos.
Voltei a respirar, queria sentir o cheiro deles depois do banho, também queria lembrar do cheiro antes. Imaginava os longos pêlos da minha gata grande e gorda. Imaginava esses pêlos em minha cara, em minhas narinas, em minha roupa, em minha cama. Devo tê-los no meu sangue até.
Queria ouvir os diferentes miados de cada um. Pensei que poderia tê-los gravados no meu mp3.. Depois de tudo, que estava acontecendo brevemente.. Não havia nenhuma preocupação em mim? Morreria com essa paz de ter dado banho nos meus gatos? O que poderia me deixar aflita?
Eis que surgiu uma preocupação à altura do que estava a pensar até aquele momento:
Até quando o banho dos meus gatos ia durar? Quem daria banho neles daqui a um mês?
Voltei ao mundo. O tec-tec das janelas, a alta velocidade do ônibus.. Na verdade, o ônibus já não estava tão rápido assim, ou talvez estivesse, mas estava em outro lugar, em outra direção, não mais da morte.
Outro dia estava sentada no banco de um ônibus, ele estava se movendo rapidamente, pensei que, naquele instante, pudesse morrer. Sempre penso em tudo e até no pior, mesmo que não pareça tão pior - talvez a idéia de morrer fosse uma das melhores. Parei o pensamento no "e se tudo acabasse aqui.." e por uns segundos senti a brisa da morte que entrava pelas janelas abertas do ônibus e que se moviam e faziam barulhos de janela desnecessários. Barulhos de janela batendo na outra janela. Ônibus. Barulhos de ônibus. Desnecessários. Sete segundos, talvez, então parei de respirar e escutar, parei de viver toda aquela coisa desnecessária. Voltou a mim o pensamento.. Naquele dia, eu banhei meus gatos.
Então seria esse o meu pensamento final de tudo?
Estaria prestes a morrer, mas estava tudo bem, meus gatos estavam livres das pulgas e carrapatos.
Voltei a respirar, queria sentir o cheiro deles depois do banho, também queria lembrar do cheiro antes. Imaginava os longos pêlos da minha gata grande e gorda. Imaginava esses pêlos em minha cara, em minhas narinas, em minha roupa, em minha cama. Devo tê-los no meu sangue até.
Queria ouvir os diferentes miados de cada um. Pensei que poderia tê-los gravados no meu mp3.. Depois de tudo, que estava acontecendo brevemente.. Não havia nenhuma preocupação em mim? Morreria com essa paz de ter dado banho nos meus gatos? O que poderia me deixar aflita?
Eis que surgiu uma preocupação à altura do que estava a pensar até aquele momento:
Até quando o banho dos meus gatos ia durar? Quem daria banho neles daqui a um mês?
Voltei ao mundo. O tec-tec das janelas, a alta velocidade do ônibus.. Na verdade, o ônibus já não estava tão rápido assim, ou talvez estivesse, mas estava em outro lugar, em outra direção, não mais da morte.
